Reflexão sobre os resultados do OPP 2018

O projecto “Retro-aranha: melhoria da capacidade de intervenção nas acções de recuperação da floresta autóctone em áreas de montanha” não foi um projecto vencedor. Como proponentes, não podemos deixar de o lamentar. Este projecto visava criar condições materiais para que se pudesse intervir com mais eficácia, menor esforço e menor impacto na recuperação ecológica e paisagística de áreas onde outras máquinas não podem chegar. A máquina a adquirir estaria disponível para intervenção por todo o norte e centro do país, apoiando iniciativas que trabalham em favor da recuperação da paisagem e da floresta autóctone, em regiões onde ambas foram tão incrivelmente sacrificadas e carecem tão ansiosamente de atenção. Mas não só: estaria também disponível para trabalhos florestais produtivos, permitindo intervenções de plantação de árvores para produção mais sustentáveis e paisagisticamente toleráveis do que as que são possíveis com máquinas mais convencionais. Seria, não temos dúvidas, um equipamento cujo valor se reflectiria em resultados conseguidos ao longo de anos, multiplicando o esforço de todos os que dão das suas energias por uma causa que é local, regional e universal: a recuperação da biodiversidade e da paisagem, procurando reverter um processo catastrófico de destruição dos processos vitais planetários.

Depois de um ano, o de 2017, que tão grandes preocupações levantou quanto ao estado da paisagem, da forma como é gerida e usufruída, com que objectivos, com que cuidados, com que técnicas, com que espécies, com que supervisão/ordenamento, esperaríamos que  uma “onda” de empenhamento se fizesse sentir de forma transversal a toda a sociedade, e que bastaria um simples “ressalto” dessa onda para um projecto como o agora “derrotado” pudesse dar nesse contexto a sua relevante contribuição. Mas isso não aconteceu, o que mostra a debilidade dessa “onda”, que talvez nem onda seja, apenas desordenada perturbação que não progride para lado nenhum.

A equipa promotora deste projecto, e permitam-nos destacar o nome do João Paulo Pedrosa, desenvolveu esforços significativos para o apoiar e promover: criou uma página no Facebook, um blogue, produziu e editou 3000 folhetos, distribuindo-os, muitas vezes por meio de abordagens pessoais, usou listas de correio electrónico, apelou ao apoio ao projecto entre associações e grupos afins. Apoiá-lo, votando, praticamente nada custava. Mesmo assim não foi conseguido. E maior é ainda a nossa estupefacção ao saber que todo este esforço, quiçá amador, conseguiu angariar 265 votos e que nem talvez com 10 vezes esse número poderia ter alcançado o seu objectivo. Isto já não revela apenas que os referidos esforços terão sido insuficientes, mas também quão débil é (ainda) um movimento que, não obstante os seus elevados objectivos, consegue afinal fazer tão pouco.

Maior perplexidade causa esta “derrota” quando olhamos para alguns dos projectos vencedores. Mesmo reconhecendo o risco de sermos acusados de “mau perder”, não podemos deixar de constatar a inacreditável falta de qualidade de projectos como “exemplo de aldeia didática e divertida”, um aglomerado de ideias desconexas baseadas em permissas irreais, descrito de forma descuidada, com erros de ortografia, semântica e continuidade, um projecto puramente dissipativo, sem cabeça, nem tronco nem membros. 300 000 euros para se esfumarem em nada. E se a este juntarmos outro projecto, agora nacional, com características similares, da mesma pena e também vencedor , não podemos deixar de ficar estupefactos perante o desperdício puro e simples de 550 000 euros.

E que projectos sem nenhuma qualidade possam arrebanhar preciosos recursos a outros com muito maior, e já não nos estamos a referir apenas ao “Retro-aranha…” mas a muitos outros que pelo menos estavam bem redigidos, deveria fazer pensar a própria organização do OPP. Porque ou resultados como o deste ano são o reflexo de uma sociedade gravemente enferma, mortalmente enferma mesmo, ou há algo neste processo que não está a funcionar devidamente. Talvez as duas tenham um pouco de verdade, mas se quanto à primeira hipótese a organização do OPP pouco pode fazer (e afinal, já o sabemos desde há pelo menos 100 anos, com a “profética” obra de Oswald Spengler), já quanto à segunda poderá ser diferente. Porque não estamos perante um orçamento verdadeiramente participativo. Fora dos círculos promotores dos projectos praticamente não se fala no assunto. Os resultados estão muito dependentes do trabalho e quiçá do “profissionalismo” colocado na angariação de votos, cujo sucesso não resulta de uma ponderação de cada cidadão face à valia das várias propostas, mas do incitamento ao voto em propostas específicas. Isto é suficiente para desvirtuar o processo: o resultado é reflexo não da qualidade das propostas, mas da eficiência e do volume de esforço colocado na angariação dos votos.

Pela nossa parte, e cremos que pela de todos aqueles que se empenharam nesta proposta, vamos continuar a trabalhar por uma causa em que acreditamos e que acreditamos que seja vital para o futuro da vida na Terra e para a própria humanidade: a recuperação da biodiversidade, numa paisagem onde ela foi tão profundamente ferida. Já todos os que o fazem, alguns com grande empenhamento e dedicação, sabiam que somos uma “força” incrivelmente pequena para o que seria necessário, que é avassaladoramente pouco o que podemos fazer, e que a sociedade em que vivemos escassamente reconhece esse trabalho, o acarinha, o apoia, nele participa. Assim mais uma vez o constatamos com o resultado deste OPP. Mas a “força” que irrompe através das nossas consciências, e que se materializa em resultados insignificantes mas apesar de tudo desproporcionalmente positivos em relação ao poder de que dispõe, nada a pode parar, nem que o resultado seja apenas uma “semente”, que impedida de germinar e de se desenvolver por o “solo” não ser favorável, permanecerá, dormente, mas viável, à espera que melhores condições aconteçam. Eis, quiçá, o nosso papel: manter a “semente”, todas as “sementes”, que forem necessárias, vivas e viáveis, por anos, décadas, gerações mesmo, até que das cinzas de uma civilização em auto-destruição possa surgir algo de novo e resplandecente.

Texto redigido por Paulo Henrique Grilo Domingues e subscrito por Luís Sarabando, Eng. Florestal e coordenador da Associação Florestal do Baixo Vouga

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